quarta-feira, 30 de junho de 2010

Dimitri, um brasileiro

Li outro dia uma matéria na revista Modo de Vida, da Joyce Pascowitch, que começava assim: “Fui conhecer a casa do franco-baiano-marroquino Dimitri Ganzelevitch”. Antes de continuar a ler, já me perguntava: onde, afinal, teria nascido Dimitri? Na França, na Bahia ou no Marrocos? Pois é, isso sempre acontece comigo. Fico fascinada com a multiculturalidade dos cidadãos deste país. Paro logo no nome e começo minha fantasia. Onde nasceu, por que saiu de lá, e o quanto essa história teria influenciado suas escolhas profissionais. Sempre espero que uma pessoa assim produza algo de diferente, inovador, com tantas culturas correndo no sangue. Continuei a leitura e descobri que Dimitri é um marchand e colecionador com ideias muito particulares e firmes. Eis a conclusão do texto, assinado por Alberto Renault: “Preencher os espaços vazios para resistir à vida lá fora. Preencher elegendo e criando companhias, alegrias, e prazeres. Seria uma definição de morar?” Tento responder da perspectiva de alguém que talvez entenda o que ele quer dizer: preencher com lembranças, ou colecionar, aquilo que nos remete a um pedaço de nós mesmos que ficou em algum lugar lá atrás.

domingo, 27 de junho de 2010

Os 20 primeiros dias

Estou adorando a repercussão do blog! Sou ainda uma blogueira novata e não consigo responder os comentários com a agilidade que eu desejaria, mas prometo melhorar! Beijos para todos e muito obrigada pela participação!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sobre a Copa do Mundo (5)

Sabe-se que muitos jogadores brasileiros tentam reproduzir no exterior o ambiente que têm no Brasil – levam familiares e amigos para viver com eles e não abrem mão da feijoada e do pagode. Acabam se relacionando apenas com outros jogadores brasileiros e não estabelecem um relacionamento mais estreito com colegas de outros países. Por mais que esse apego possa ser em certo sentido louvável, será que vale a pena perder a oportunidade de conhecer a fundo uma nova cultura?

Sobre a Copa do Mundo (4)

Aproveitei um caderno especial sobre a Copa que estava outro dia no jornal e fiz umas contas. Somados, os 23 jogadores convocados por Dunga passaram 158 anos no exterior (24% dos seus 660 anos de vida). Isso equivale, em média, a sete anos fora do Brasil para cada um. Foram 35 anos passados na Itália, 30 na Espanha, 27 na Alemanha, 19 na Inglaterra, 14 em Portugal, 12 na França, 9 na Holanda, 4 na Turquia, 3 na Grécia, 3 na Ucrânia, 1 na Rússia e 1 na Coréia. A soma de todas essas experiências de vida é certamente fascinante. Mas será que os jogadores conseguem entrar em contato com aspectos culturais dos países em que vivem ou mantém apenas uma relação “profissional” e “fria” com cada lugar, absorvidos pela rotina de treinos e jogos? Chegam a aprender o idioma, experimentam a comida típica, fazem amigos no bairro em que moram?

Sobre a Copa do Mundo (3)

Não há vínculo maior entre as regiões do Brasil, tão diferentes e distantes entre si, do que o amor pelo futebol e pela seleção brasileira. É quase inexplicável como um país inteiro pára diante da TV para acompanhar os jogos. Mas será que essa ligação entre o povo e os jogadores continua tão forte quanto no passado? Dos 23 convocados por Dunga, apenas três atuam em times brasileiros. Os demais estão espalhados por oito países europeus. Vivendo tão longe, eles conseguem sentir a corrente de alta tensão que toma conta dos brasileiros durante a Copa? Há quem defenda a ideia de que somente jogadores em atividade dentro do país deveriam jogar pela seleção nacional. Será que a distância faz mesmo arrefecer o sentimento de patriotismo, o orgulho de pertencer a uma nação? Logo me vem à cabeça a comparação com o namoro a distância, cuja chama – dizem – vai se apagando aos poucos. Será que com o patriotismo acontece o mesmo? Acho que quem já morou ou ainda mora longe do seu país pode me ajudar a responder essa questão...

Uma recomendação de leitura

“Lembre-se, existem apenas duas coisas que não podemos esconder: Ishq e mushq. Amor e cheiro.” Esta é a primeira frase de um belo livro, Ishq e Mushq, romance de estreia da jovem inglesa Priya Basil, 33 anos. O livro conta a história de Sarna, que conhece o futuro marido, Karam, durante a guerra da independência da India, em 1947. Apaixonado, o jovem casal se muda para o Quênia e mais tarde para a Inglaterra, sempre em busca de algo que jamais conseguiria alcançar – a sensação de felicidade plena. Aos poucos o leitor vai descobrindo que os segredos e traumas que cada um carregava eram o grande obstáculo para apagar de vez o passado e recomeçar uma vida verdadeiramente nova. A relação esfria com o tempo e Sarna passa a descontar suas frustrações na cozinha – é ali, preparando os melhores pratos da cozinha indiana, que ela se reconecta com suas origens e tem a sensação de voltar à infância, único período da vida em que imagina ter sido realmente feliz. Trata-se, no fundo, de um livro sobre a busca de uma família pela própria identidade. A história nos faz pensar: é possível alcançar a felicidade plena deixando para trás as raízes ou é inevitável que uma família de imigrantes viva com a permanente sensação de que está faltando alguma coisa?

sábado, 19 de junho de 2010

Um verdadeiro cidadão do mundo

O cantor e compositor Mika, apelido de Michael Holbrook Penniman, é o que se pode chamar de “cidadão do mundo”. Nascido em Beirute em 1983, filho de um norte-americano e de uma libanesa, ele se mudou para a França com os pais para escapar dos conflitos no Líbano. Ainda criança foi para a Inglaterra, onde estourou há dois anos nas paradas com um estilo que mistura David Bowie, Freddie Mercury, Elton John e Prince. Depois do primeiro single, Grace Kelly, ele conquistou a crítica com outros sucessos como Love Today e Big Girl. Em fevereiro deste ano, lançou Blame it on the girls. E eu fico aqui me perguntando: o que teria sido de Mika se ele tivesse permanecido no Líbano? Encontraria o caminho da arte de qualquer jeito ou teria uma trajetória totalmente distante da música?

domingo, 13 de junho de 2010

Sobre a Copa do Mundo (2)

Tenho um amigo, nascido na Inglaterra, que passou a adolescência na Argentina, mas mudou-se para o Brasil, onde casou e teve uma filha. Nessas épocas de Copa, sinto que ele se rasga por dentro. Quer torcer somente para o Brasil, mas toda vez que a Argentina ou a Inglaterra jogam, percebo que sua fisionomia se transforma e vem aquela vontade de gritar “goool!”. Mas ele se segura e finge que não é com ele. Se o Brasil é desclassificado, ele até sente um alívio porque pode começar a torcer para seus dois outros times sem drama de consciência... Tenho outros tantos amigos, filhos e netos de italianos, que torcem em primeiro lugar para o Brasil, mas também ficam felizes se a Itália vence. E tudo isso vale para descendentes de alemães, franceses e até de árabes que se identificam com qualquer país da região que consiga participar de uma Copa do Mundo. E você, leitor, acha que dá para amar mais de um time? Será que é como perguntar se dá para amar duas mulheres ao mesmo tempo? Se aquela dos sonhos não estiver disponível, quem sabe damos uma chance à felicidade com a outra...

Sobre a Copa do Mundo (1)

Estamos em clima de Copa do Mundo e eu me pergunto: quantos brasileiros têm um segundo time escondido no coração verde-amarelo? No caso de uma eventual desclassificação do Brasil, para quem você torceria? Para a seleção do país de origem dos seus pais, dos seus avós, ou para um país em relação ao qual você tenha desenvolvido algum tipo de simpatia por razões não relacionadas às suas origens? Ou você é daqueles 100% Brasil, que se recusa a torcer para outra seleção?

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Quando as emoções afloram (2)

Será que um imigrante consegue tocar sua vida adiante sem olhar para trás? Será que é possível construir uma história inteiramente nova, que desconsidere o passado? Muitas vezes me questiono se todo imigrante carrega consigo essa necessidade de conhecer suas origens.
Quanto tempo é necessário para que um brasileiro nato se sinta genuinamente brasileiro, sem se sentir patrioticamente ligado ao país – ou países – em que seus antepassados viveram?
Fica a pergunta para todos os filhos, netos e bisnetos de imigrantes que vieram para o Brasil e foram tão bem acolhidos. Conseguimos ser 100% brasileiros, sem amarras com o passado? Ou será que isso pouco importa?

Quando as emoções afloram (1)

Há algumas semanas, recebi um e-mail de um senhor chamado George Abid, professor de arquitetura na Universidade Americana de Beirute. Ele me informava que uma de suas alunas, Aline Haddad, estava concluindo seu curso e apresentando como trabalho final um estudo sobre meu avô, Zareh Nazareth Baghdassarian, importante arquiteto libanês entre as décadas de 1930 e 1960.
Em seu e-mail, George me pedia para auxiliar sua aluna fornecendo algumas informações sobre meu avô. Respondi que havia deixado o Líbano muito cedo, em 1970, aos seis anos, e que infelizmente tinha pouco conhecimento sobre a obra deixado pelo meu avô.
Prometi falar com minha mãe, que está com 78 anos e tem uma saúde frágil, mas uma memória de elefante para fatos antigos. Fui entrevistar minha mãe – uma tarde em que muitas emoções afloraram. Choramos juntas e falamos do amor pelos nossos pais, ambos já falecidos.
Ao final daquele encontro, me deparei outra vez com aquela sensação que imaginava ter deixado para trás após publicar meu livro: a angústia de querer saber mais sobre minhas origens. Quantos fatos eu desconhecia até aquele momento, e quanta coisa agora fazia sentido!
Entendi um pouco mais porque sou como sou.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A necessidade de ter raízes

“Ter raízes é talvez a necessidade mais importante e menos reconhecida da alma humana... Como podemos saber para onde vamos se não soubermos de onde e por que viemos?” (Hannah Arendt, filósofa alemã, 1906-1975)

Como tudo começou (3)

Logo percebi que cada linha do relato que brotava do papel era um pedaço de mim. Entendi que, na verdade, eu estava tentando esclarecer aquilo que me perturbava desde criança: o sentimento de “não pertencer”. Eu agora sabia claramente de onde vinha, e isso aliviava aquela dor perturbadora.
O exílio é um lugar sem lugar definido, um Estado sem nome. Não sou uma refugiada, não sou uma fugitiva, nem uma sobrevivente, sou apenas mais uma imigrante. Como afirmar, então, que estou no exílio? Exilados pensam em voltar? São nacionalistas fanáticos? Tentam manter vivas suas tradições e costumes? Este é o exilado clássico, aquele que todos conhecem. O livro Destinos Deslocados é resultado de uma busca permanente de um tipo de exilado que poucos reconhecem, o imigrante.

Como tudo começou (2)

O livro Destinos Deslocados nasceu de um forte sentimento que me perseguiu por praticamente toda a vida como uma sombra grudada aos meus pés – ou melhor, à minha alma. Um sentimento que se manifesta na busca por descobrir quem sou de fato e compreender a sensação permanente de “não pertencer” que sempre me afligiu.
Não pertencer, não encaixar, não entender, não concordar e, por fim, não aceitar. Sempre tive dificuldades para aceitar minha diferença, não aquela óbvia e inerente ao ser humano – somos todos individuais e únicos –, mas uma diferença mais sutil, camuflada por mim às vezes de propósito, mas quase sempre de forma inconsciente.
Talvez até pareça que estou tentando dizer que considerava essa diferença algo negativo, mas a verdade é que na maioria do tempo me sentia especial – e isso é muito perturbador. Durante anos achei que devia dizer algo, mas não sabia o quê. Finalmente aceitei a sugestão feita por alguns amigos: escrever um romance. Não sobre um tema que era secreto, mas sobre as histórias que gostava de contar em encontros sociais e que faziam as pessoas se divertirem e rirem por alguns instantes.

Como tudo começou (1)

O livro que publiquei há três anos, Destinos Deslocados, conta basicamente a história de meus pais, Mireille e Ibrahim, que se mudaram para o Brasil em 1969 com sua pequena filha única de cinco anos nascida no Líbano: eu. Para mim, o livro foi acima de tudo uma prova pública da minha aceitação e gratidão pelos pais que tenho. Eles me ensinaram que é possível ser diferente e deram início à missão que pretendo honrar, oferecendo ao Brasil o que tenho de melhor: meus filhos. Neste blog, eu gostaria de continuar refletindo e discutindo a temática que é o pano de fundo do livro e, por assim dizer, da minha própria vida: o que é, afinal, sentir-se brasileira? Quantas gerações são necessárias para que os imigrantes que chegam ao Brasil ou a qualquer outro país assimilem novos hábitos e costumes? No meu caso, sinto ainda que estou entre dois mundos, dois pontos distantes entre os quais ainda não consegui estabelecer uma ligação plena. E fico me perguntando: quantas e quantas pessoas se sentem da mesma forma neste imenso e multicultural país?