segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Ibrahim e Mireille (9)

Não há obstáculos para corações apaixonados, contudo. Mireille propôs que o casamento se realizasse no Chipre, uma romântica ilha próxima à Grécia, onde, diziam, casar era tão simples quanto comprar frutas na feira. Ibrahim adorou a ideia. Mireille percorreu rapidamente as lojas de Beirute à procura de um vestido de noiva. A tarefa ficou um pouco mais complicada porque ela estava decidida a casar-se com um modelo em sintonia com a descontração que imaginava encontrar no verão do Chipre - de preferência, com a barriga de fora. Sem muitas alternativas, teve que recorrer a um terninho azul-marinho, combinado com uma calça estilo Capri, com cintura baixa. E comprou um chapéu de praia para completar o traje. O casamento ocorreu no dia 4 de agosto de 1962. Logo depois da cerimônia, Ibrahim e Mireille contrataram um fotógrafo, subiram uma montanha e tiraram dezenas, talvez centenas de fotografias. Os dois eram só felicidade.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ibrahim e Mireille (8)

Poucos dias depois, em meio ao entusiasmo de uma noitada, Ibrahim perguntou se Mireille teria a coragem de, um dia, se casar com ele. Não era uma proposta: tratava-se apenas de uma sondagem inconsequente, quase em tom de brincadeira. Ela respondeu da mesma forma tortuosa: "por que  não?" Também não era um "sim" oficial; era apenas uma especulação. Os dois riram muito com a situação e dançaram felizes pelo resto da noite, sem saber direito se estavam noivos.
Até que Ibrahim decidiu encarar a fera e contou à mãe que tinha a intenção de casar com Mireille. A reação foi a pior possível. Adibe ficou consternada, encheu os ouvidos do filho com uma série de barbaridades e passou a engendrar todo tipo de estratégia para evitar a "tragédia". Começou fazendo uma peregrinação por todas as igrejas de Beirute, deixando claro aos padres e bispos que interpretaria a realização do casamento como uma ofensa pessoal a ela. Argumentava que "aquela mulher" já havia se casado na igreja com outro homem e, além disso, tivera várias outras relações conjugais. A pressão deu resultado - Adibe era influente na sociedade local - e Ibrahim não conseguiu encontrar uma igreja para realizar o casamento em Beirute.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ibrahim e Mireille (7)

Não era difícil entender o interesse de Ibrahim por Mireille, porque ela era de fato uma mulher fascinante - e que representava, para ele, a chance de escapar de um futuro limitado e previsível. Talvez fosse a última oportunidade de tornar-se protagonista da própria história. Já o interesse de Mireille por Ibrahim podia ser explicado pela necessidade de encontrar um porto seguro depois de tantas turbulências. E também pela excitação diante da possibilidade de enfrentar a poderosa Adibe Maalouf, claro.
Os dois teriam que superar muitos obstáculos para ficar juntos. Tudo pareceu simples, contudo, diante da súbita vontade que Ibrahim e Mireille sentiram de eternizar seus primeiros momentos de loucura e atração irracional. Eles enfrentariam o mundo e assumiriam o romance assim que chegassem a Beirute. Ibrahim estava decidido a ignorar a reação da noiva, da mãe, da irmã, da sociedade, de quem quer que fosse, para viver uma paixão proibida.

Ibrahim e Mireille (6)

Tudo seguia bem até que, em Beirute, a mãe de Ibrahim, Adibe, ouviu falar que ele estava se encontrando com a tal Mireille no Hotel Kadri - e ficou transtornada. Como assim? Logo com a filha do armênio, divorciada, aquela menina que só fazia escândalos no hotel, que colocava salto alto, batom vermelho e usava shorts minúsculos? Por que Ibrahim estava dando trela para uma desclassificada como aquela, se era noivo de uma das moças mais cobiçadas de todo o Oriente Médio?
Sim, é preciso esclarece esse ponto, embora Ibrahim curiosamente tivesse esquecido de contá-lo a Mireille nos primeiros encontros no piano-bar. De fato ele era noivo de uma mulher muito bela, egípcia, irmã do ator Omar Sharif, que no ano seguinte ficaria famoso no mundo inteiro interpretando Lawrence da Arábia no cinema. O noivado já durava nove anos. Era um típico compromisso de conveniência, acertado entre as duas famílias. Um eventual rompimento àquela altura seria impensável, uma grande desonra.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ibrahim e Mireille (5)

A temporada no Hotel Kadri se prolongou e os quatro continuaram se vendo todas as noites no piano-bar quase vazio. Na medida em que se tornaram mais íntimos, Mireille deixou os resquícios de pudor de lado e passou a contar intimidades, como o fato de ter feito plástica nos seios e no nariz, algo incomum no Líbano à época.
Também descreveia viagens fascinantes por vários países da Europa e contava destalhes de todos os seus relacionamentos amorosos. Aos poucos, foi se soltando e apreciando verdadeiramente a companhia.
Certa noite, depois do costumeiro uísque no hotel, Ibrahim convidou os acompanhantes para ir a uma boate. Chegando lá, demonstrou sua intimidade com um ritmo que estava ganhando fama mundo afora, o samba brasileiro. Mireille ficou bem impressionada com aquela inusitada habilidade, adquirida no período de adolescência em que Ibrahim morou no Brasil, na casa da avó materna.