sábado, 24 de julho de 2010

O enigma dos brasileiros

Depois de duas intensas semanas de cultura e esporte, resolvi me render aos prazeres mais mundanos e que exigem menos desgaste físico e mental. Atravessei o Atlântico e cheguei em Miami. Estou aqui com meu filho e minha filha, que tem sido uma grande companheira. Temos desenvolvido a arte da “observação”. Observamos e depois elaboramos. Quem é essa ou aquela pessoa? O que estará se passando em sua vida? E esse casal? Será que estão juntos há muito tempo? O que será que a moça está pensando? E aquela turma, o que faz da vida? E por aí vamos... A constatação mais importante é que conseguimos reconhecer brasileiros em qualquer lugar do planeta. Não precisamos ouvi-los falar, nem identificar qualquer símbolo estampado na vestimenta. "Por que será que conseguimos saber que são brasileiros?", pergunta minha filha. Será que é a maneira de pentear o cabelo, de andar, de dar risada? Difícil definir, já que não há no Brasil um tipo físico predominante... Ontem estivemos na Disney e um caricaturista comentou, enquanto desenhava o contorno do rosto do meu filho: “Puxa, muitos de vocês estão por aqui, sabemos reconhecê-los de longe!” Ele, por sinal, era polonês! Será que suecos reconhecem suecos, argentinos reconhecem argentinos, e por aí vai? Às vezes tenho a impressão que somos muito mais tribais do que globalizados. E começo a achar que, quando estamos longe de casa, o conforto da identificação é mais importante do que imaginamos...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Esses eu reconheço de longe... (2)

Minha mãe tem ascendência armênia. Esse povo foi vítima de um dos maiores crimes já cometidos contra a humanidade – estima-se que, apenas em 1915, algo entre 600 mil e 1,5 milhão de armênios tenham sido mortos pelos turcos ou sucumbido diante da fome ou da sede, confinados em desertos. Meu avó Zareh perdeu vários parentes, mas seus pais conseguiram escapar com os filhos para o Líbano quando ele tinha 10 anos. Lá, sem dinheiro nem bens, os Baghdassarian se puseram a trabalhar duro. Havia a decisão de que pelo menos um deles não poderia parar de estudar. As apostas recaíram sobre Zareh, tido desde cedo como gênio na matemática. Ele confirmou as expectativas. Formou-se em engenharia e projetou algumas das obras mais importantes do Líbano. Dizem que, se não fosse estrangeiro, teria certamente sido ministro do Planejamento, cargo para o qual chegou a ser cogitado.

Esses eu reconheço de longe... (1)

Fui jantar outro dia no restaurante Parigi e, enquanto aguardava, fiquei observando as mesas ao redor. Bem à frente jantavam quatro casais de meia idade. As mulheres muito elegantes e os maridos muito falantes. Comecei a observar atentamente e notei que conhecia algumas daquelas pessoas. Algumas em eventos sociais, outras me foram apresentadas de passagem. O que mais me chamou a atenção, porém, eram suas fisionomias familiares e os traços físicos que tinham em comum. Imediatamente me dei conta que eram todos morenos de pele clara, as mulheres de cabelos negros e os olhos no formato de jabuticabas, emolduradas por grossas sobrancelhas de forte expressão. Um olhar facilmente reconhecível para mim. Eram todos, sem exceção, de famílias armênias. Todos nascidos no Brasil, provavelmente de terceira geração. Parei para pensar e me dei conta que eram pessoas influentes em suas áreas de atuação – comércio e construção. Mas o mais interessante foi ver essa reunião de amigos. Será que era coincidência todos terem as mesmas origens, terem casado entre si e serem amigos, formando o que imaginei ser uma “turminha”? São todos definitivamente brasileiros. Mas, pelo jeito, não deixam passar a oportunidade de se encontrar entre seus compatriotas, ou melhor, entre descendentes de seus avós compatriotas. Do que será que falavam? Sobre a vida no Brasil, é claro.

domingo, 18 de julho de 2010

Minhas lembranças do Líbano (3)

Naquela semana, a menina almoçou na sua lanchonete favorita, Wimpy's, com a avó Marie. Enquanto as lágrimas corriam pela face de Carol ao conversarem sobre a desilusão que ela causara ao amigo, a avó lhe dizia, com seu semblante sempre tranquilo, que muitas outras vezes a vida a colocaria em situações que não desejaria estar. O importante, nesses casos, seria buscar a oportunidade de corrigir os erros cometidos. Carol infelizmente não teve esta oportunidade.
Naquele mesmo mês, um ônibus cheio de palestinos explodiria no centro de Beirute, origem de tensões que afundariam o país na longa guerra civil que oporia os cristãos maronitas à coalizão formada por drusos e muçulmanos.
Aos poucos, Mireille e Carol começavam a sentir e a demonstrar a vontade de voltar ao Brasil. Depois de quase um ano no Líbano, elas desembarcaram em São Paulo e Ibrahim pôde matar as saudades.

Minhas lembranças do Líbano (2)

Certa vez o menino convidou Carol para o cinema, prontificando-se a comprar os ingressos e os refrigerantes com o dinheiro que havia economizado ao longo do mês. Fazia questão. Combinaram o programa e o menino esperou na porta do cinema por uma hora, mas Carol não apareceu. Sua avó Adibe já havia feito outros planos para ela e, como o rapaz não tinha telefone, Carol não pôde avisá-lo.
A menina nunca mais esqueceu daquele dia. De como chorou ao imaginar o amigo esperando, certamente convencido de que ela era mais uma riquinha cristã que não se importava com os sentimentos dos já tão maltratados palestinos. A menina jurou, naquele dia, que jamais voltaria a magoar um amigo daquela forma.

Minhas lembranças do Líbano (1)

Saí do Líbano pequena, mas voltei algumas vezes para visitar os parentes. Numa dessas ocasiões, fiquei quase um ano com a minha mãe, enquanto meu pai cuidava dos negócios em São Paulo. Uma das lembranças mais doces desse período foi a minha amizade com um menino palestino, que relatei no meu livro (escrito em terceira pessoa):
As portas dos apartamentos do conjunto de prédios em que a avó de Carol morava permaneciam abertas para que as vizinhas pudessem passar o dia conversando enquanto cozinhavam. O trabalho de lavar as roupas, o mais extenuante de todos, era compartilhado. Nos corredores as crianças brincavam despreocupadamente e a música árabe, a todo volume, ecoava pelos vãos das escadas dos edifícios. Enquanto as meninas trocavam suas bonecas, os meninos brincavam com as tampas de refrigerantes que recolhiam ou de bola, quando aparecia uma no bairro. O programa mais sofisticado era ir ao cinema, aos sábados, assistir comédias ingênuas.
Nessa época Carol fez amizade com o menino do apartamento em frente ao da avó. Miúdo, de pele clara e olhos esverdeados, ele tinha uma coragem que até então Carol não sabia que crianças podiam ter. Fazia as compras de casa sozinho, falava com os feirantes da rua e com os outros adultos de igual para igual, pegava o ônibus para atravessar a cidade e buscar alimentos que não existiam nos mercadinhos locais.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A influência de Edward Said (3)

A filha de Said, Najla, 35 anos, estreou há poucas semanas no circuito off-Broadway uma peça chamada Palestine, monólogo escrito por ela própria. Najla cresceu em Nova York, com direito a um cotidiano típico de patricinha – veraneios no badalado balneário de Hamptons e todos os apelos consumistas da “capital do mundo”–, mas nunca conseguiu se desvencilhar verdadeiramente da questão da dupla identidade, por ser filha de quem é, pelos traços físicos que inegavelmente indicam sua origem e pelas visitas que fazia na infância ao Líbano, terra da mãe. Mas só depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 ela passou pelo que chama de “grande transformação”. “Mesmo sem ser muçulmana e apesar de os palestinos não terem nada a ver com os atentados, ela ficou com medo da reação que os amigos americanos teriam por seu sobrenome ser Said. Najla chegou a brigar com um personal trainer em Manhattan que teria criticado os palestinos e os ligado a Bin Laden. E disse que, pela primeira vez, passou a se sentir árabe”, descreveu uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo sobre a peça.

A influência de Edward Said (2)

Intelectual respeitado, professor em Columbia com doutorado em Harvard, Said foi um sociólogo, escritor e ativista da causa palestina. Seu livro mais conhecido, Orientalismo, ajudou americanos e europeus a entender melhor o mundo árabe. Mas uma de suas obras mais tocantes não foi no campo da literatura. Em parceria com o amigo israelita Daniel Barenboim, ele fundou no final da década de 1990, poucos anos antes de morrer vitimado por leucemia, a West-Eastern Divan Orchestra, unindo jovens músicos de Israel e dos países árabes. Tive o privilégio de presenciar uma apresentação da orquestra aqui em São Paulo, sob regência do próprio Barenboim. Foi uma experiência fantástica. A obra de Said pode ser conhecida com mais profundidade neste site.

A influência de Edward Said (1)

Usei como epígrafe do meu livro o seguinte trecho de Reflexões sobre o Exílio, do intelectual e crítico literário Edward Said (1935-2003): “O exílio nos compele estranhamente a pensar sobre ele, mas é terrível de experienciar. Ele é uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada. E, embora seja verdade que a literatura e a história contêm episódios heroicos, românticos e gloriosos e até triunfais da vida de um exilado, eles não são mais do que esforços para superar a dor da separação. As realizações do exílio são permanentemente minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre.”

domingo, 11 de julho de 2010

O melhor investimento (3)

E você, caro(a) leitor(a)? Qual foi a sua melhor viagem e qual é a sua viagem dos sonhos?

O melhor investimento (2)

“Viagens são fatais ao preconceito, à discriminação, à visão estreita, e muitos precisam terrivelmente de viagens por causa disso. Uma visão ampla, integral e caridosa das pessoas e das coisas não pode ser adquirida vegetando num cantinho do planeta durante a vida inteira.” (Mark Twain)

O melhor investimento (1)

É interessante como os lugares escolhidos para visitar, a lista de lugares já visitados e as atividades exercidas durante as viagens podem revelar muito sobre uma pessoa. Há quem só visite lugares desenvolvidos e outros que preferem os “exóticos”. Há quem se interesse mais pelos monumentos, museus e arquitetura, enquanto outros se atraem principalmente pelo povo, costumes e tradições. Há quem viaje para outro país só para fazer compras, experimentar comidas, ver animais selvagens ou até mesmo jogar golfe! Outros decidem se “especializar” e só visitam ilhas, por exemplo. Há os que vão várias vezes ao mesmo lugar e aqueles que acham essas repetições uma perda de tempo – afinal, temos um mundo tão grande e fascinante a desbravar! Muitas escolhas dependem também das limitações orçamentárias e do tempo disponível, claro. Acho que qualquer tipo de viagem, independente da motivação, vale a pena. E o importante mesmo é estar de olhos e todos os demais sentidos bem abertos, mesmo quando se anda pelo próprio bairro, pela própria cidade. Só não entendo como há pessoas que não gostam de viajar!

sábado, 3 de julho de 2010

De bicicleta no Loire (4)

Depois de explorar o Loire de bicicleta por cinco dias e pedalar uns 100 quilômetros, conheci Karen. Ela é americana e solteira, com 50 e poucos anos. Essa mulher passou os últimos 20 anos pedalando pelo mundo. Uma guia para inexperientes como eu. Há cinco anos escolheu fincar raízes na região de Chinon. Por que Chinon? Simplesmente porque esteve por lá na juventude e se apaixonou pelo lugar. Prometeu que um dia voltaria e assim o fez. Karen mora numa casa adaptada a uma caverna troglodita do século XII. Comprou por uma notaria e recebeu ajuda do governo francês para restaurar o local e tombá-lo como edificação histórica. Depois de tudo pronto, resolveu adotar uma criança. Percorreu o mundo, matriculando-se em órgãos oficiais para adoção. Encontrou resistência em praticamente todos os países por ser solteira. Contou-me que o Brasil foi um dos que mais obstáculos impôs. Dois anos atrás, Karen recebeu uma ligação da Rússia. Um menino estava à espera. Tinha quatro anos e havia sido abandonado sozinho dentro de um apartamento na Sibéria, sem comida e em condições de total falta de higiene. Karen retornou à França com Nico e desde então vivem juntos, construindo uma nova história para ambos. O que mais chamou minha atenção foi um comentário que Karen fez antes de terminar o delicioso almoço que havia oferecido ao meu grupo em sua excêntrica caverna. Ela me disse que pretendia fechar a casa por alguns anos e se mudar para Moscou. Por quê? Aquilo me intrigou, pois o menino estava completamente adaptado à nova vida na França. Fala francês e inglês fluentemente e não parece querer buscar algo perdido. Karen explicou: sua decisão nada tinha a ver com a situação da adoção, nem muito menos era uma forma de dar a Nico algo que no futuro poderia lhe fazer falta. Ela simplesmente queria oferecer a Nico a oportunidade de aprender mais uma língua e entrar em contato com mais uma cultura, pois seria fácil permanecer legalmente na Rússia por algum tempo, já que o menino havia nascido lá. Se era assim, por que não aproveitar? Afinal, Nico é filho de uma cidadã do mundo, e – tal mãe, tal filho – precisa estar sempre pronto para explorá-lo!

De bicicleta no Loire (3)

Existem memórias que nos acompanham a vida toda, principalmente memórias da infância, que têm o poder de nos reconfortar em vários momentos de nossas vidas. Essas memórias muitas vezes estão ligadas a cheiros. Cheiros de comida, de plantas e flores, ou até do perfume da vovó. Hoje entendo que, ao atravessar o Atlântico para baixo da Linha do Equador, esses cheiros ficaram para trás, junto com minhas memórias. Não sinto a dor da separação, como me perguntou Doris, sinto porém a dor da ausência. Ausência daquilo que me remete à minha infância, à minha história individual e única. Cheiros tropicais e o clima úmido não fazem meus sentidos se “ligarem” tanto, pois minhas “digitais” sensoriais não foram construídas no Brasil – saí do Líbano aos cinco anos. Acho que isso explica muita coisa. O Loire não é Beirute, mas a região carrega na natureza muitas similaridades mediterrâneas. Isso às vezes me faz falta...

De bicicleta no Loire (2)

Passeando de bicicleta pelo Loire, peguei uma pequena estrada dentro de uma floresta. Uma estrada que ligava a cidadezinha de Chinon a Saumur. Nunca estive lá antes, mas senti, em algum momento, algo assustadoramente familiar. Uma inquietude sensorial, como um déjà vu ou uma cena de uma vida anterior. Tudo aconteceu de forma repentina, a partir de um aroma que pareceu conhecido. Era o cheiro das plantas e flores que me engoliam enquanto minha bicicleta rolava silenciosamente entre as árvores áridas e de folhas pequenas da região seca da França Provençal - um cheiro que só existe daquele lado do Atlântico. Mas o que aquilo tinha a ver comigo? Por que me senti tão em casa? Por que lembrei tanto da minha primeira infância? E, finalmente, por que achei que aquilo me fazia tanta falta?

De bicicleta no Loire (1)

Estive viajando de bicicleta pelo interior da França, mais precisamente na região do Loire, que eu não conhecia. Algo de muito significativo me aconteceu e percebi que finalmente uma das minhas questões referentes a deslocamento estava sendo respondida. Minha amiga Doris outro dia me perguntou se eu sentia a dor da separação. Não tinha certeza se o sentimento era exatamente de dor, mas não conseguia nominá-lo. Agora finalmente consegui.