segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Ibrahim e Mireille (4)

Graças à antipatia recíproca na adolescência, Mireille e Ibrahim logo se reconheceram e acharam curioso aquele reencontro - afinal, não se viam havia um bom tempo. O movimento de aproximação veio de Ibrahim, até porque Mireille jamais daria o primeiro passo nesse sentido. Ela sempre adotava a tática da indiferença: fingir que não estava dando a mínima era a fórmula infalível para atrair as atenções masculinas.
- Podemos nos sentar aqui com vocês?, perguntou Ibrahim.
Mireille permaneceu fiel à personagem que adorava interpretar:
- Desculpe, mas estou com dor de cabeça e preciso descansar.
Levantou-se e seguiu rumo ao quarto, imediatamente acompanhada por Sônia. Os dois rapazes ficaram sem ação.
Na noite seguinte, Ibrahim e Tôni novamente apareceram no piano-bar. Só que, desta vez, Sônia não quis perder a chance de conhecer aqueles rapazes simpáticos e, ao perceber que eles novamente se aproximavam, implorou para que Mireille continuasse na mesa. Mireille devia esse favor à fiel acompanhante e, assim, os quatro finalmente se reuniram.

Ibrahim e Mireille (3)

Ibrahim também foi ao Kadri com um primo, Tôni, que passava uma temporada na fazenda - os dois iam eventualmente ao hotel para jogar gamão, beber e conversar. Ao avistar Mireille, Ibrahim logo lembrou da menina arrogante, de nariz empinado, que falava um árabe macarrônico. Como estudara em escola francesa - Beirute havia sido colônia francesa até 1948 -, ela preferia conversar no idioma de Proust, o que soava como exibicionismo para quem tinha orgulho das origens e grande interesse pelo legado dos antepassados, como Ibrahim, um árabe típico.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Ibrahim e Mireille (2)

Fora da temporada de inverno, raramente aparecia alguém diferente no Kadri. Certa noite, no entanto, dois homens bem-vestidos entraram no piano-bar. Um deles Mireille conhecia desde criança, já que as famílias de ambos frequentavam os mesmos lugares: era Ibrahim, um fazendeiro que ela, com sua educação francesa e vivência em vários países, considerava grosseiro e caipira. Na adolescência, um dos passatempos de Mireille era satirizar os hábitos e atitudes dos jovens da região. Ibrahim, um ano mais velho, era um dos alvos prediletos. Ela ria do bigodinho dele, das roupas, do sotaque pesado de árabe. Tamanha hostilidade não deixava de ser uma reação: filha de divorciados desde os dez anos, com hábitos excessivamente liberais como usar shorts e biquíni (os primeiros a chegar às lojas de Beirute), Mireille não era bem vista pelas famílias tradicionais da região.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Ibrahim e Mireille (1)

Zahle, Líbano, verão de 1961. Propositalmente escondida em um canto do piano-bar vazio, sufocada pela fumaça dos cigarros que acendia sem parar, Mireille pouco lembrava a mulher habituada a ser o centro das atenções por onde quer que fosse. No lugar do sorriso luminoso aparecia vez ou outra apenas um esboço protocolar, reconhecimento ao empenho da prima Sônia em tentar animá-la. Também quase não havia vestígio da sua "marca registrada", o olhar que lhe dava um ar permanente de superioridade e suposto desinteresse pelo que acontecia ao redor, tal como uma diva de cinema entediada. Naquele momento, tudo o que Mireille deixava transparecer era tristeza. Acabara de romper o terceiro casamento, antes mesmo de oficializá-lo. Como nas outras ocasiões, tomou a iniciativa. Desta vez, contudo, a separação veio acompanhada de uma sensação estranha, um vazio difícil de explicar. Um sentimento de incompetência que evoluía rapidamente para um estado de depressão. Aos 30 anos, seria o fantasma da solidão a assombrá-la?

A primeira história

Bem, vou começar por uma história de deslocamento por amor que é muito importante para mim - afinal, se essa história não tivesse ocorrido eu sequer existiria. Vou pinçar alguns trechos do meu livro para resumir como tudo aconteceu entre Ibrahim e Mireille.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Lendas de uma paixão

Quando paramos para pensar em “deslocamentos”, especialmente de uma terra para outra, logo imaginamos que os motivos foram guerras, instabilidade política ou econômica, ou até mesmo alguma oportunidade que tenha surgido ao longo de uma vida. Difícil é pensarmos em paixão. Mas talvez as paixões tenham causado mais deslocamentos que qualquer guerra. E quando me refiro a uma paixão, não estou falando de uma profissão, um esporte de aventura, uma busca pessoal ou um hobby, e sim daquela paixão que aparece quando menos esperamos e subitamente nos toma, sem ter sido planejada ou mesmo idealizada - a paixão pelo outro. Pensando nisso, comecei a lembrar de todos os casos que já me foram contados por pessoas que deslocaram seus destinos por causa de um grande amor. Algumas de fato mudaram o rumo da vida, outras deixaram de fazê-lo, mas continuaram por anos imaginando como teria sido. Pretendo contar aqui algumas dessas histórias, que me fascinaram e coloriram minha imaginação ao viver emoções alheias - e até hoje me encantam. Ilustrarei os fatos com nomes fictícios, preservando assim as personagens. Enquanto isso, para ir entrando no clima, sugiro os filmes citados no post anterior...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Antes do amanhecer

Outro dia assisti pela quinta vez a um dos meus filmes favoritos, "Antes do Amanhecer", protagonizado pela atriz francesa Julie Delpy em 1995. Quase dez anos depois, em 2004, ela filmou a sequência planejada desde o começo - "Antes do Pôr do Sol" -, com o mesmo parceiro, Ethan Hawke. No primeiro filme, Jesse, um jovem americano, e Celine, uma estudante francesa, encontram-se casualmente no trem para Viena e logo começam a conversar. Ele a convence a desembarcar na capital austríaca e aos poucos os dois se envolvem em uma paixão crescente. Mas existe uma verdade inevitável: no dia seguinte ela irá para Paris e ele voltará aos Estados Unidos. Com isso, resta aos dois apaixonados aproveitar ao máximo o pouco tempo que terão juntos. Na sequência, uma década depois, Jesse se tornou escritor e vai lançar um livro em Paris, onde reencontra Celine por acaso. No curto tempo de uma tarde, eles passeiam pela capital francesa e falam sobre os últimos acontecimentos da vida de cada um, revivendo fortes emoções. O filme mostra que poucas horas são suficientes para deslocar emocionalmente o destino das pessoas. Um deslocamento pode se dar de várias maneiras, e minha próxima abordagem será o deslocamento que grandes paixões ou amores podem causar na vida de alguém - e como nossas vidas podem tomar rumos totalmente imprevistos a partir de um único olhar.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Terras imaginárias – Pasárgada

Para encerrar a série sobre terras imaginárias, eu não poderia deixar de citar o poeta brasileiro Manuel Bandeira e seu célebre poema “Vou-me embora pra Pasárgada”:

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Terras imaginárias - Utopia

Thomas Morus batizou sua terra imaginária com a palavra inspirada no termo grego utopos, que significa “lugar nenhum”. O livro, de 1516, descreve uma sociedade perfeita – e a palavra acabou sendo adotada como sinônimo de algo impossível de se realizar. Alguns estudos sobre a obra chegaram à conclusão de que Morus se inspirou em relatos de Américo Vespúcio sobre a ilha de Fernando de Noronha, no litoral brasileiro, descoberta alguns anos antes, em 1503.

domingo, 15 de agosto de 2010

Terras imaginárias – País das Maravilhas

As aventuras da menina Alice voltaram à moda com o recente lançamento do filme do diretor Tim Burton, que conta a história de uma Alice um pouco mais velha, já com 19 anos. A obra foi escrita pelo professor de Matemática Charles Dodgson, que usava o pseudônimo Lewis Carroll, em 1865. Ele atendeu aos pedidos da filha de um conhecido, Alice Liddell, de 10 anos, que insistia para que Dodgson lhe contasse histórias. A obra se tornou um clássico da literatura inglesa e a Alice de verdade – que morreu em 1934, aos 82 anos – passou a vida convivendo com a fama por ter sido a musa inspiradora.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Terras imaginárias - Liliput

Liliput é uma ilha que vive em pé de guerra com a rival Blefuscu. Qualquer motivo fútil é suficiente para exaltar os ânimos entre as inimigas. Trata-se de uma sátira feita pelo autor irlandês Jonathan Swift à situação da França e Inglaterra naquele início de século XVIII – o livro As viagens de Gulliver foi publicado em 1726. Gulliver era um gigante para os seres minúsculos que habitavam Liliput, metáfora perspicaz sobre como o que somos pode ser moldado e reinterpretado dependendo do lugar em que nos encontramos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Terras imaginárias - Oz

Dorothy é levada de Kansas por um tornado e vai parar em um lugar desconhecido, o reino de Oz. Em busca do caminho de volta para a terra natal (seria Dorothy uma imigrante arrependida?), ela encontra o leão, o homem de lata e o espantalho, entre outras figuras excêntricas. Rodado em 1939, o filme O Mágico de Oz fez grande sucesso e até hoje encanta crianças ao redor do mundo, mas pouca gente sabe que a Terra de Oz foi criação de um escritor americano chamado L. Frank Baum, que lançou o primeiro livro da série em 1900 e publicou outros 13 até a morte, em 1919.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Terras imaginárias – Shangri-lá

O nome que virou sinônimo de paraíso foi criado pelo escritor inglês James Hilton em Horizonte Perdido, livro publicado em 1933. Inspirado possivelmente por antigos ensinamentos do budismo, o autor descreveu Shangri-lá como um lugar em meio às montanhas do Himalaia em que as pessoas desfrutavam da sensação de felicidade plena – e tinham o privilégio da eternidade. Uma curiosidade ligada ao Brasil é que há no Rio Grande do Sul uma cidade que foi batizada como Xangri-lá – quem nasce lá é xangrilense.

Terras imaginárias

A eterna insatisfação humana impulsionou escritores de diversas épocas a criar ilhas, países e reinos imaginários. Às vezes enxergo as pessoas que deixam a terra natal para construir a vida em outro lugar um pouco como a Dorothy em Oz, Gulliver em Liliput ou Alice no País das Maravilhas. Sempre em busca de algo idealizado e que possivelmente jamais será encontrado. Refletindo sobre tudo isso, inicio aqui no blog uma série sobre terras imaginárias, tema que nos conduz naturalmente à questão do pertencimento e não-pertencimento.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A beleza é universal

 
 
A recém-eleita miss Estados Unidos, Rima Fakih, 24 anos, está sentindo na pele a pressão que imigrantes podem sofrer nos Estados Unidos. Nascida no Líbano, ela mudou-se ainda criança com a família para Nova York – onde o pai abriu um restaurante –, e mais tarde para o estado de Michigan, pelo qual concorreu ao título de beleza. Assim que foi eleita, Rima, formada em economia pela Universidade de Michigan, passou a ser alvo de campanhas de blogs conservadores que a acusaram de ligações com fundamentalistas islâmicos. Outros se preocuparam em encontrar “manchas” na trajetória da moça – fotos em que ela aparece dançando sensualmente, por exemplo. Pergunto: será que ela sofreria a mesma perseguição se tivesse nome, sobrenome e traços tipicamente americanos?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Um encontro inusitado

Puxei conversa com o rapaz que trabalhava como concierge do hotel de Miami em que me hospedei. O primeiro detalhe que me chamou a atenção foi o seu nome, Orestis. Perguntei a origem e ele respondeu que era grega. Adicionou, porém, que seu nome de batismo havia sido Tarik. “Por que mudou?”, eu quis saber. Ele contou que, assim que nasceu, seu pai, libanês, abandonou a mãe. Anos depois ela se casou com um grego, que o adotou e mudou o nome. Em seguida, o rapaz acrescentou algo incrível: “Ontem mesmo contei essa história para um casal de libaneses hospedado aqui no hotel e falei o nome do meu pai biológico. Ficaram completamente atônitos, pois não só o conheciam, como não sabiam que ele tinha um filho de um casamento anterior. Eles me passaram o e-mail do meu pai, mas pediram que eu os mantivesse longe da história, pois temiam algum tipo de represália.” Naquele dia, Orestis acabara de mandar um e-mail ao pai biológico e dizia estar esperando ansiosamente por uma resposta. Perguntei o quanto realmente desejava o contato. “Sabe, na verdade, não faz tanta diferença, estou feliz e amo meus pais. A única coisa que me mantém ligado ao passado é o fato de sempre me perguntarem se sou libanês, por causa das minhas características físicas. Não sei nada do Líbano, não falo a língua e nasci e cresci nos Estados Unidos. Mas de tanto ouvir que sou um típico libanês na aparência, resolvi saber um pouco mais. Assim como você, muitas pessoas despertam minha curiosidade quando falam da minha aparência.”