segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Ibrahim e Mireille (9)

Não há obstáculos para corações apaixonados, contudo. Mireille propôs que o casamento se realizasse no Chipre, uma romântica ilha próxima à Grécia, onde, diziam, casar era tão simples quanto comprar frutas na feira. Ibrahim adorou a ideia. Mireille percorreu rapidamente as lojas de Beirute à procura de um vestido de noiva. A tarefa ficou um pouco mais complicada porque ela estava decidida a casar-se com um modelo em sintonia com a descontração que imaginava encontrar no verão do Chipre - de preferência, com a barriga de fora. Sem muitas alternativas, teve que recorrer a um terninho azul-marinho, combinado com uma calça estilo Capri, com cintura baixa. E comprou um chapéu de praia para completar o traje. O casamento ocorreu no dia 4 de agosto de 1962. Logo depois da cerimônia, Ibrahim e Mireille contrataram um fotógrafo, subiram uma montanha e tiraram dezenas, talvez centenas de fotografias. Os dois eram só felicidade.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ibrahim e Mireille (8)

Poucos dias depois, em meio ao entusiasmo de uma noitada, Ibrahim perguntou se Mireille teria a coragem de, um dia, se casar com ele. Não era uma proposta: tratava-se apenas de uma sondagem inconsequente, quase em tom de brincadeira. Ela respondeu da mesma forma tortuosa: "por que  não?" Também não era um "sim" oficial; era apenas uma especulação. Os dois riram muito com a situação e dançaram felizes pelo resto da noite, sem saber direito se estavam noivos.
Até que Ibrahim decidiu encarar a fera e contou à mãe que tinha a intenção de casar com Mireille. A reação foi a pior possível. Adibe ficou consternada, encheu os ouvidos do filho com uma série de barbaridades e passou a engendrar todo tipo de estratégia para evitar a "tragédia". Começou fazendo uma peregrinação por todas as igrejas de Beirute, deixando claro aos padres e bispos que interpretaria a realização do casamento como uma ofensa pessoal a ela. Argumentava que "aquela mulher" já havia se casado na igreja com outro homem e, além disso, tivera várias outras relações conjugais. A pressão deu resultado - Adibe era influente na sociedade local - e Ibrahim não conseguiu encontrar uma igreja para realizar o casamento em Beirute.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ibrahim e Mireille (7)

Não era difícil entender o interesse de Ibrahim por Mireille, porque ela era de fato uma mulher fascinante - e que representava, para ele, a chance de escapar de um futuro limitado e previsível. Talvez fosse a última oportunidade de tornar-se protagonista da própria história. Já o interesse de Mireille por Ibrahim podia ser explicado pela necessidade de encontrar um porto seguro depois de tantas turbulências. E também pela excitação diante da possibilidade de enfrentar a poderosa Adibe Maalouf, claro.
Os dois teriam que superar muitos obstáculos para ficar juntos. Tudo pareceu simples, contudo, diante da súbita vontade que Ibrahim e Mireille sentiram de eternizar seus primeiros momentos de loucura e atração irracional. Eles enfrentariam o mundo e assumiriam o romance assim que chegassem a Beirute. Ibrahim estava decidido a ignorar a reação da noiva, da mãe, da irmã, da sociedade, de quem quer que fosse, para viver uma paixão proibida.

Ibrahim e Mireille (6)

Tudo seguia bem até que, em Beirute, a mãe de Ibrahim, Adibe, ouviu falar que ele estava se encontrando com a tal Mireille no Hotel Kadri - e ficou transtornada. Como assim? Logo com a filha do armênio, divorciada, aquela menina que só fazia escândalos no hotel, que colocava salto alto, batom vermelho e usava shorts minúsculos? Por que Ibrahim estava dando trela para uma desclassificada como aquela, se era noivo de uma das moças mais cobiçadas de todo o Oriente Médio?
Sim, é preciso esclarece esse ponto, embora Ibrahim curiosamente tivesse esquecido de contá-lo a Mireille nos primeiros encontros no piano-bar. De fato ele era noivo de uma mulher muito bela, egípcia, irmã do ator Omar Sharif, que no ano seguinte ficaria famoso no mundo inteiro interpretando Lawrence da Arábia no cinema. O noivado já durava nove anos. Era um típico compromisso de conveniência, acertado entre as duas famílias. Um eventual rompimento àquela altura seria impensável, uma grande desonra.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ibrahim e Mireille (5)

A temporada no Hotel Kadri se prolongou e os quatro continuaram se vendo todas as noites no piano-bar quase vazio. Na medida em que se tornaram mais íntimos, Mireille deixou os resquícios de pudor de lado e passou a contar intimidades, como o fato de ter feito plástica nos seios e no nariz, algo incomum no Líbano à época.
Também descreveia viagens fascinantes por vários países da Europa e contava destalhes de todos os seus relacionamentos amorosos. Aos poucos, foi se soltando e apreciando verdadeiramente a companhia.
Certa noite, depois do costumeiro uísque no hotel, Ibrahim convidou os acompanhantes para ir a uma boate. Chegando lá, demonstrou sua intimidade com um ritmo que estava ganhando fama mundo afora, o samba brasileiro. Mireille ficou bem impressionada com aquela inusitada habilidade, adquirida no período de adolescência em que Ibrahim morou no Brasil, na casa da avó materna.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Ibrahim e Mireille (4)

Graças à antipatia recíproca na adolescência, Mireille e Ibrahim logo se reconheceram e acharam curioso aquele reencontro - afinal, não se viam havia um bom tempo. O movimento de aproximação veio de Ibrahim, até porque Mireille jamais daria o primeiro passo nesse sentido. Ela sempre adotava a tática da indiferença: fingir que não estava dando a mínima era a fórmula infalível para atrair as atenções masculinas.
- Podemos nos sentar aqui com vocês?, perguntou Ibrahim.
Mireille permaneceu fiel à personagem que adorava interpretar:
- Desculpe, mas estou com dor de cabeça e preciso descansar.
Levantou-se e seguiu rumo ao quarto, imediatamente acompanhada por Sônia. Os dois rapazes ficaram sem ação.
Na noite seguinte, Ibrahim e Tôni novamente apareceram no piano-bar. Só que, desta vez, Sônia não quis perder a chance de conhecer aqueles rapazes simpáticos e, ao perceber que eles novamente se aproximavam, implorou para que Mireille continuasse na mesa. Mireille devia esse favor à fiel acompanhante e, assim, os quatro finalmente se reuniram.

Ibrahim e Mireille (3)

Ibrahim também foi ao Kadri com um primo, Tôni, que passava uma temporada na fazenda - os dois iam eventualmente ao hotel para jogar gamão, beber e conversar. Ao avistar Mireille, Ibrahim logo lembrou da menina arrogante, de nariz empinado, que falava um árabe macarrônico. Como estudara em escola francesa - Beirute havia sido colônia francesa até 1948 -, ela preferia conversar no idioma de Proust, o que soava como exibicionismo para quem tinha orgulho das origens e grande interesse pelo legado dos antepassados, como Ibrahim, um árabe típico.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Ibrahim e Mireille (2)

Fora da temporada de inverno, raramente aparecia alguém diferente no Kadri. Certa noite, no entanto, dois homens bem-vestidos entraram no piano-bar. Um deles Mireille conhecia desde criança, já que as famílias de ambos frequentavam os mesmos lugares: era Ibrahim, um fazendeiro que ela, com sua educação francesa e vivência em vários países, considerava grosseiro e caipira. Na adolescência, um dos passatempos de Mireille era satirizar os hábitos e atitudes dos jovens da região. Ibrahim, um ano mais velho, era um dos alvos prediletos. Ela ria do bigodinho dele, das roupas, do sotaque pesado de árabe. Tamanha hostilidade não deixava de ser uma reação: filha de divorciados desde os dez anos, com hábitos excessivamente liberais como usar shorts e biquíni (os primeiros a chegar às lojas de Beirute), Mireille não era bem vista pelas famílias tradicionais da região.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Ibrahim e Mireille (1)

Zahle, Líbano, verão de 1961. Propositalmente escondida em um canto do piano-bar vazio, sufocada pela fumaça dos cigarros que acendia sem parar, Mireille pouco lembrava a mulher habituada a ser o centro das atenções por onde quer que fosse. No lugar do sorriso luminoso aparecia vez ou outra apenas um esboço protocolar, reconhecimento ao empenho da prima Sônia em tentar animá-la. Também quase não havia vestígio da sua "marca registrada", o olhar que lhe dava um ar permanente de superioridade e suposto desinteresse pelo que acontecia ao redor, tal como uma diva de cinema entediada. Naquele momento, tudo o que Mireille deixava transparecer era tristeza. Acabara de romper o terceiro casamento, antes mesmo de oficializá-lo. Como nas outras ocasiões, tomou a iniciativa. Desta vez, contudo, a separação veio acompanhada de uma sensação estranha, um vazio difícil de explicar. Um sentimento de incompetência que evoluía rapidamente para um estado de depressão. Aos 30 anos, seria o fantasma da solidão a assombrá-la?

A primeira história

Bem, vou começar por uma história de deslocamento por amor que é muito importante para mim - afinal, se essa história não tivesse ocorrido eu sequer existiria. Vou pinçar alguns trechos do meu livro para resumir como tudo aconteceu entre Ibrahim e Mireille.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Lendas de uma paixão

Quando paramos para pensar em “deslocamentos”, especialmente de uma terra para outra, logo imaginamos que os motivos foram guerras, instabilidade política ou econômica, ou até mesmo alguma oportunidade que tenha surgido ao longo de uma vida. Difícil é pensarmos em paixão. Mas talvez as paixões tenham causado mais deslocamentos que qualquer guerra. E quando me refiro a uma paixão, não estou falando de uma profissão, um esporte de aventura, uma busca pessoal ou um hobby, e sim daquela paixão que aparece quando menos esperamos e subitamente nos toma, sem ter sido planejada ou mesmo idealizada - a paixão pelo outro. Pensando nisso, comecei a lembrar de todos os casos que já me foram contados por pessoas que deslocaram seus destinos por causa de um grande amor. Algumas de fato mudaram o rumo da vida, outras deixaram de fazê-lo, mas continuaram por anos imaginando como teria sido. Pretendo contar aqui algumas dessas histórias, que me fascinaram e coloriram minha imaginação ao viver emoções alheias - e até hoje me encantam. Ilustrarei os fatos com nomes fictícios, preservando assim as personagens. Enquanto isso, para ir entrando no clima, sugiro os filmes citados no post anterior...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Antes do amanhecer

Outro dia assisti pela quinta vez a um dos meus filmes favoritos, "Antes do Amanhecer", protagonizado pela atriz francesa Julie Delpy em 1995. Quase dez anos depois, em 2004, ela filmou a sequência planejada desde o começo - "Antes do Pôr do Sol" -, com o mesmo parceiro, Ethan Hawke. No primeiro filme, Jesse, um jovem americano, e Celine, uma estudante francesa, encontram-se casualmente no trem para Viena e logo começam a conversar. Ele a convence a desembarcar na capital austríaca e aos poucos os dois se envolvem em uma paixão crescente. Mas existe uma verdade inevitável: no dia seguinte ela irá para Paris e ele voltará aos Estados Unidos. Com isso, resta aos dois apaixonados aproveitar ao máximo o pouco tempo que terão juntos. Na sequência, uma década depois, Jesse se tornou escritor e vai lançar um livro em Paris, onde reencontra Celine por acaso. No curto tempo de uma tarde, eles passeiam pela capital francesa e falam sobre os últimos acontecimentos da vida de cada um, revivendo fortes emoções. O filme mostra que poucas horas são suficientes para deslocar emocionalmente o destino das pessoas. Um deslocamento pode se dar de várias maneiras, e minha próxima abordagem será o deslocamento que grandes paixões ou amores podem causar na vida de alguém - e como nossas vidas podem tomar rumos totalmente imprevistos a partir de um único olhar.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Terras imaginárias – Pasárgada

Para encerrar a série sobre terras imaginárias, eu não poderia deixar de citar o poeta brasileiro Manuel Bandeira e seu célebre poema “Vou-me embora pra Pasárgada”:

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Terras imaginárias - Utopia

Thomas Morus batizou sua terra imaginária com a palavra inspirada no termo grego utopos, que significa “lugar nenhum”. O livro, de 1516, descreve uma sociedade perfeita – e a palavra acabou sendo adotada como sinônimo de algo impossível de se realizar. Alguns estudos sobre a obra chegaram à conclusão de que Morus se inspirou em relatos de Américo Vespúcio sobre a ilha de Fernando de Noronha, no litoral brasileiro, descoberta alguns anos antes, em 1503.

domingo, 15 de agosto de 2010

Terras imaginárias – País das Maravilhas

As aventuras da menina Alice voltaram à moda com o recente lançamento do filme do diretor Tim Burton, que conta a história de uma Alice um pouco mais velha, já com 19 anos. A obra foi escrita pelo professor de Matemática Charles Dodgson, que usava o pseudônimo Lewis Carroll, em 1865. Ele atendeu aos pedidos da filha de um conhecido, Alice Liddell, de 10 anos, que insistia para que Dodgson lhe contasse histórias. A obra se tornou um clássico da literatura inglesa e a Alice de verdade – que morreu em 1934, aos 82 anos – passou a vida convivendo com a fama por ter sido a musa inspiradora.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Terras imaginárias - Liliput

Liliput é uma ilha que vive em pé de guerra com a rival Blefuscu. Qualquer motivo fútil é suficiente para exaltar os ânimos entre as inimigas. Trata-se de uma sátira feita pelo autor irlandês Jonathan Swift à situação da França e Inglaterra naquele início de século XVIII – o livro As viagens de Gulliver foi publicado em 1726. Gulliver era um gigante para os seres minúsculos que habitavam Liliput, metáfora perspicaz sobre como o que somos pode ser moldado e reinterpretado dependendo do lugar em que nos encontramos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Terras imaginárias - Oz

Dorothy é levada de Kansas por um tornado e vai parar em um lugar desconhecido, o reino de Oz. Em busca do caminho de volta para a terra natal (seria Dorothy uma imigrante arrependida?), ela encontra o leão, o homem de lata e o espantalho, entre outras figuras excêntricas. Rodado em 1939, o filme O Mágico de Oz fez grande sucesso e até hoje encanta crianças ao redor do mundo, mas pouca gente sabe que a Terra de Oz foi criação de um escritor americano chamado L. Frank Baum, que lançou o primeiro livro da série em 1900 e publicou outros 13 até a morte, em 1919.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Terras imaginárias – Shangri-lá

O nome que virou sinônimo de paraíso foi criado pelo escritor inglês James Hilton em Horizonte Perdido, livro publicado em 1933. Inspirado possivelmente por antigos ensinamentos do budismo, o autor descreveu Shangri-lá como um lugar em meio às montanhas do Himalaia em que as pessoas desfrutavam da sensação de felicidade plena – e tinham o privilégio da eternidade. Uma curiosidade ligada ao Brasil é que há no Rio Grande do Sul uma cidade que foi batizada como Xangri-lá – quem nasce lá é xangrilense.

Terras imaginárias

A eterna insatisfação humana impulsionou escritores de diversas épocas a criar ilhas, países e reinos imaginários. Às vezes enxergo as pessoas que deixam a terra natal para construir a vida em outro lugar um pouco como a Dorothy em Oz, Gulliver em Liliput ou Alice no País das Maravilhas. Sempre em busca de algo idealizado e que possivelmente jamais será encontrado. Refletindo sobre tudo isso, inicio aqui no blog uma série sobre terras imaginárias, tema que nos conduz naturalmente à questão do pertencimento e não-pertencimento.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A beleza é universal

 
 
A recém-eleita miss Estados Unidos, Rima Fakih, 24 anos, está sentindo na pele a pressão que imigrantes podem sofrer nos Estados Unidos. Nascida no Líbano, ela mudou-se ainda criança com a família para Nova York – onde o pai abriu um restaurante –, e mais tarde para o estado de Michigan, pelo qual concorreu ao título de beleza. Assim que foi eleita, Rima, formada em economia pela Universidade de Michigan, passou a ser alvo de campanhas de blogs conservadores que a acusaram de ligações com fundamentalistas islâmicos. Outros se preocuparam em encontrar “manchas” na trajetória da moça – fotos em que ela aparece dançando sensualmente, por exemplo. Pergunto: será que ela sofreria a mesma perseguição se tivesse nome, sobrenome e traços tipicamente americanos?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Um encontro inusitado

Puxei conversa com o rapaz que trabalhava como concierge do hotel de Miami em que me hospedei. O primeiro detalhe que me chamou a atenção foi o seu nome, Orestis. Perguntei a origem e ele respondeu que era grega. Adicionou, porém, que seu nome de batismo havia sido Tarik. “Por que mudou?”, eu quis saber. Ele contou que, assim que nasceu, seu pai, libanês, abandonou a mãe. Anos depois ela se casou com um grego, que o adotou e mudou o nome. Em seguida, o rapaz acrescentou algo incrível: “Ontem mesmo contei essa história para um casal de libaneses hospedado aqui no hotel e falei o nome do meu pai biológico. Ficaram completamente atônitos, pois não só o conheciam, como não sabiam que ele tinha um filho de um casamento anterior. Eles me passaram o e-mail do meu pai, mas pediram que eu os mantivesse longe da história, pois temiam algum tipo de represália.” Naquele dia, Orestis acabara de mandar um e-mail ao pai biológico e dizia estar esperando ansiosamente por uma resposta. Perguntei o quanto realmente desejava o contato. “Sabe, na verdade, não faz tanta diferença, estou feliz e amo meus pais. A única coisa que me mantém ligado ao passado é o fato de sempre me perguntarem se sou libanês, por causa das minhas características físicas. Não sei nada do Líbano, não falo a língua e nasci e cresci nos Estados Unidos. Mas de tanto ouvir que sou um típico libanês na aparência, resolvi saber um pouco mais. Assim como você, muitas pessoas despertam minha curiosidade quando falam da minha aparência.”

sábado, 24 de julho de 2010

O enigma dos brasileiros

Depois de duas intensas semanas de cultura e esporte, resolvi me render aos prazeres mais mundanos e que exigem menos desgaste físico e mental. Atravessei o Atlântico e cheguei em Miami. Estou aqui com meu filho e minha filha, que tem sido uma grande companheira. Temos desenvolvido a arte da “observação”. Observamos e depois elaboramos. Quem é essa ou aquela pessoa? O que estará se passando em sua vida? E esse casal? Será que estão juntos há muito tempo? O que será que a moça está pensando? E aquela turma, o que faz da vida? E por aí vamos... A constatação mais importante é que conseguimos reconhecer brasileiros em qualquer lugar do planeta. Não precisamos ouvi-los falar, nem identificar qualquer símbolo estampado na vestimenta. "Por que será que conseguimos saber que são brasileiros?", pergunta minha filha. Será que é a maneira de pentear o cabelo, de andar, de dar risada? Difícil definir, já que não há no Brasil um tipo físico predominante... Ontem estivemos na Disney e um caricaturista comentou, enquanto desenhava o contorno do rosto do meu filho: “Puxa, muitos de vocês estão por aqui, sabemos reconhecê-los de longe!” Ele, por sinal, era polonês! Será que suecos reconhecem suecos, argentinos reconhecem argentinos, e por aí vai? Às vezes tenho a impressão que somos muito mais tribais do que globalizados. E começo a achar que, quando estamos longe de casa, o conforto da identificação é mais importante do que imaginamos...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Esses eu reconheço de longe... (2)

Minha mãe tem ascendência armênia. Esse povo foi vítima de um dos maiores crimes já cometidos contra a humanidade – estima-se que, apenas em 1915, algo entre 600 mil e 1,5 milhão de armênios tenham sido mortos pelos turcos ou sucumbido diante da fome ou da sede, confinados em desertos. Meu avó Zareh perdeu vários parentes, mas seus pais conseguiram escapar com os filhos para o Líbano quando ele tinha 10 anos. Lá, sem dinheiro nem bens, os Baghdassarian se puseram a trabalhar duro. Havia a decisão de que pelo menos um deles não poderia parar de estudar. As apostas recaíram sobre Zareh, tido desde cedo como gênio na matemática. Ele confirmou as expectativas. Formou-se em engenharia e projetou algumas das obras mais importantes do Líbano. Dizem que, se não fosse estrangeiro, teria certamente sido ministro do Planejamento, cargo para o qual chegou a ser cogitado.

Esses eu reconheço de longe... (1)

Fui jantar outro dia no restaurante Parigi e, enquanto aguardava, fiquei observando as mesas ao redor. Bem à frente jantavam quatro casais de meia idade. As mulheres muito elegantes e os maridos muito falantes. Comecei a observar atentamente e notei que conhecia algumas daquelas pessoas. Algumas em eventos sociais, outras me foram apresentadas de passagem. O que mais me chamou a atenção, porém, eram suas fisionomias familiares e os traços físicos que tinham em comum. Imediatamente me dei conta que eram todos morenos de pele clara, as mulheres de cabelos negros e os olhos no formato de jabuticabas, emolduradas por grossas sobrancelhas de forte expressão. Um olhar facilmente reconhecível para mim. Eram todos, sem exceção, de famílias armênias. Todos nascidos no Brasil, provavelmente de terceira geração. Parei para pensar e me dei conta que eram pessoas influentes em suas áreas de atuação – comércio e construção. Mas o mais interessante foi ver essa reunião de amigos. Será que era coincidência todos terem as mesmas origens, terem casado entre si e serem amigos, formando o que imaginei ser uma “turminha”? São todos definitivamente brasileiros. Mas, pelo jeito, não deixam passar a oportunidade de se encontrar entre seus compatriotas, ou melhor, entre descendentes de seus avós compatriotas. Do que será que falavam? Sobre a vida no Brasil, é claro.

domingo, 18 de julho de 2010

Minhas lembranças do Líbano (3)

Naquela semana, a menina almoçou na sua lanchonete favorita, Wimpy's, com a avó Marie. Enquanto as lágrimas corriam pela face de Carol ao conversarem sobre a desilusão que ela causara ao amigo, a avó lhe dizia, com seu semblante sempre tranquilo, que muitas outras vezes a vida a colocaria em situações que não desejaria estar. O importante, nesses casos, seria buscar a oportunidade de corrigir os erros cometidos. Carol infelizmente não teve esta oportunidade.
Naquele mesmo mês, um ônibus cheio de palestinos explodiria no centro de Beirute, origem de tensões que afundariam o país na longa guerra civil que oporia os cristãos maronitas à coalizão formada por drusos e muçulmanos.
Aos poucos, Mireille e Carol começavam a sentir e a demonstrar a vontade de voltar ao Brasil. Depois de quase um ano no Líbano, elas desembarcaram em São Paulo e Ibrahim pôde matar as saudades.

Minhas lembranças do Líbano (2)

Certa vez o menino convidou Carol para o cinema, prontificando-se a comprar os ingressos e os refrigerantes com o dinheiro que havia economizado ao longo do mês. Fazia questão. Combinaram o programa e o menino esperou na porta do cinema por uma hora, mas Carol não apareceu. Sua avó Adibe já havia feito outros planos para ela e, como o rapaz não tinha telefone, Carol não pôde avisá-lo.
A menina nunca mais esqueceu daquele dia. De como chorou ao imaginar o amigo esperando, certamente convencido de que ela era mais uma riquinha cristã que não se importava com os sentimentos dos já tão maltratados palestinos. A menina jurou, naquele dia, que jamais voltaria a magoar um amigo daquela forma.

Minhas lembranças do Líbano (1)

Saí do Líbano pequena, mas voltei algumas vezes para visitar os parentes. Numa dessas ocasiões, fiquei quase um ano com a minha mãe, enquanto meu pai cuidava dos negócios em São Paulo. Uma das lembranças mais doces desse período foi a minha amizade com um menino palestino, que relatei no meu livro (escrito em terceira pessoa):
As portas dos apartamentos do conjunto de prédios em que a avó de Carol morava permaneciam abertas para que as vizinhas pudessem passar o dia conversando enquanto cozinhavam. O trabalho de lavar as roupas, o mais extenuante de todos, era compartilhado. Nos corredores as crianças brincavam despreocupadamente e a música árabe, a todo volume, ecoava pelos vãos das escadas dos edifícios. Enquanto as meninas trocavam suas bonecas, os meninos brincavam com as tampas de refrigerantes que recolhiam ou de bola, quando aparecia uma no bairro. O programa mais sofisticado era ir ao cinema, aos sábados, assistir comédias ingênuas.
Nessa época Carol fez amizade com o menino do apartamento em frente ao da avó. Miúdo, de pele clara e olhos esverdeados, ele tinha uma coragem que até então Carol não sabia que crianças podiam ter. Fazia as compras de casa sozinho, falava com os feirantes da rua e com os outros adultos de igual para igual, pegava o ônibus para atravessar a cidade e buscar alimentos que não existiam nos mercadinhos locais.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A influência de Edward Said (3)

A filha de Said, Najla, 35 anos, estreou há poucas semanas no circuito off-Broadway uma peça chamada Palestine, monólogo escrito por ela própria. Najla cresceu em Nova York, com direito a um cotidiano típico de patricinha – veraneios no badalado balneário de Hamptons e todos os apelos consumistas da “capital do mundo”–, mas nunca conseguiu se desvencilhar verdadeiramente da questão da dupla identidade, por ser filha de quem é, pelos traços físicos que inegavelmente indicam sua origem e pelas visitas que fazia na infância ao Líbano, terra da mãe. Mas só depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 ela passou pelo que chama de “grande transformação”. “Mesmo sem ser muçulmana e apesar de os palestinos não terem nada a ver com os atentados, ela ficou com medo da reação que os amigos americanos teriam por seu sobrenome ser Said. Najla chegou a brigar com um personal trainer em Manhattan que teria criticado os palestinos e os ligado a Bin Laden. E disse que, pela primeira vez, passou a se sentir árabe”, descreveu uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo sobre a peça.

A influência de Edward Said (2)

Intelectual respeitado, professor em Columbia com doutorado em Harvard, Said foi um sociólogo, escritor e ativista da causa palestina. Seu livro mais conhecido, Orientalismo, ajudou americanos e europeus a entender melhor o mundo árabe. Mas uma de suas obras mais tocantes não foi no campo da literatura. Em parceria com o amigo israelita Daniel Barenboim, ele fundou no final da década de 1990, poucos anos antes de morrer vitimado por leucemia, a West-Eastern Divan Orchestra, unindo jovens músicos de Israel e dos países árabes. Tive o privilégio de presenciar uma apresentação da orquestra aqui em São Paulo, sob regência do próprio Barenboim. Foi uma experiência fantástica. A obra de Said pode ser conhecida com mais profundidade neste site.

A influência de Edward Said (1)

Usei como epígrafe do meu livro o seguinte trecho de Reflexões sobre o Exílio, do intelectual e crítico literário Edward Said (1935-2003): “O exílio nos compele estranhamente a pensar sobre ele, mas é terrível de experienciar. Ele é uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada. E, embora seja verdade que a literatura e a história contêm episódios heroicos, românticos e gloriosos e até triunfais da vida de um exilado, eles não são mais do que esforços para superar a dor da separação. As realizações do exílio são permanentemente minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre.”

domingo, 11 de julho de 2010

O melhor investimento (3)

E você, caro(a) leitor(a)? Qual foi a sua melhor viagem e qual é a sua viagem dos sonhos?

O melhor investimento (2)

“Viagens são fatais ao preconceito, à discriminação, à visão estreita, e muitos precisam terrivelmente de viagens por causa disso. Uma visão ampla, integral e caridosa das pessoas e das coisas não pode ser adquirida vegetando num cantinho do planeta durante a vida inteira.” (Mark Twain)

O melhor investimento (1)

É interessante como os lugares escolhidos para visitar, a lista de lugares já visitados e as atividades exercidas durante as viagens podem revelar muito sobre uma pessoa. Há quem só visite lugares desenvolvidos e outros que preferem os “exóticos”. Há quem se interesse mais pelos monumentos, museus e arquitetura, enquanto outros se atraem principalmente pelo povo, costumes e tradições. Há quem viaje para outro país só para fazer compras, experimentar comidas, ver animais selvagens ou até mesmo jogar golfe! Outros decidem se “especializar” e só visitam ilhas, por exemplo. Há os que vão várias vezes ao mesmo lugar e aqueles que acham essas repetições uma perda de tempo – afinal, temos um mundo tão grande e fascinante a desbravar! Muitas escolhas dependem também das limitações orçamentárias e do tempo disponível, claro. Acho que qualquer tipo de viagem, independente da motivação, vale a pena. E o importante mesmo é estar de olhos e todos os demais sentidos bem abertos, mesmo quando se anda pelo próprio bairro, pela própria cidade. Só não entendo como há pessoas que não gostam de viajar!

sábado, 3 de julho de 2010

De bicicleta no Loire (4)

Depois de explorar o Loire de bicicleta por cinco dias e pedalar uns 100 quilômetros, conheci Karen. Ela é americana e solteira, com 50 e poucos anos. Essa mulher passou os últimos 20 anos pedalando pelo mundo. Uma guia para inexperientes como eu. Há cinco anos escolheu fincar raízes na região de Chinon. Por que Chinon? Simplesmente porque esteve por lá na juventude e se apaixonou pelo lugar. Prometeu que um dia voltaria e assim o fez. Karen mora numa casa adaptada a uma caverna troglodita do século XII. Comprou por uma notaria e recebeu ajuda do governo francês para restaurar o local e tombá-lo como edificação histórica. Depois de tudo pronto, resolveu adotar uma criança. Percorreu o mundo, matriculando-se em órgãos oficiais para adoção. Encontrou resistência em praticamente todos os países por ser solteira. Contou-me que o Brasil foi um dos que mais obstáculos impôs. Dois anos atrás, Karen recebeu uma ligação da Rússia. Um menino estava à espera. Tinha quatro anos e havia sido abandonado sozinho dentro de um apartamento na Sibéria, sem comida e em condições de total falta de higiene. Karen retornou à França com Nico e desde então vivem juntos, construindo uma nova história para ambos. O que mais chamou minha atenção foi um comentário que Karen fez antes de terminar o delicioso almoço que havia oferecido ao meu grupo em sua excêntrica caverna. Ela me disse que pretendia fechar a casa por alguns anos e se mudar para Moscou. Por quê? Aquilo me intrigou, pois o menino estava completamente adaptado à nova vida na França. Fala francês e inglês fluentemente e não parece querer buscar algo perdido. Karen explicou: sua decisão nada tinha a ver com a situação da adoção, nem muito menos era uma forma de dar a Nico algo que no futuro poderia lhe fazer falta. Ela simplesmente queria oferecer a Nico a oportunidade de aprender mais uma língua e entrar em contato com mais uma cultura, pois seria fácil permanecer legalmente na Rússia por algum tempo, já que o menino havia nascido lá. Se era assim, por que não aproveitar? Afinal, Nico é filho de uma cidadã do mundo, e – tal mãe, tal filho – precisa estar sempre pronto para explorá-lo!

De bicicleta no Loire (3)

Existem memórias que nos acompanham a vida toda, principalmente memórias da infância, que têm o poder de nos reconfortar em vários momentos de nossas vidas. Essas memórias muitas vezes estão ligadas a cheiros. Cheiros de comida, de plantas e flores, ou até do perfume da vovó. Hoje entendo que, ao atravessar o Atlântico para baixo da Linha do Equador, esses cheiros ficaram para trás, junto com minhas memórias. Não sinto a dor da separação, como me perguntou Doris, sinto porém a dor da ausência. Ausência daquilo que me remete à minha infância, à minha história individual e única. Cheiros tropicais e o clima úmido não fazem meus sentidos se “ligarem” tanto, pois minhas “digitais” sensoriais não foram construídas no Brasil – saí do Líbano aos cinco anos. Acho que isso explica muita coisa. O Loire não é Beirute, mas a região carrega na natureza muitas similaridades mediterrâneas. Isso às vezes me faz falta...

De bicicleta no Loire (2)

Passeando de bicicleta pelo Loire, peguei uma pequena estrada dentro de uma floresta. Uma estrada que ligava a cidadezinha de Chinon a Saumur. Nunca estive lá antes, mas senti, em algum momento, algo assustadoramente familiar. Uma inquietude sensorial, como um déjà vu ou uma cena de uma vida anterior. Tudo aconteceu de forma repentina, a partir de um aroma que pareceu conhecido. Era o cheiro das plantas e flores que me engoliam enquanto minha bicicleta rolava silenciosamente entre as árvores áridas e de folhas pequenas da região seca da França Provençal - um cheiro que só existe daquele lado do Atlântico. Mas o que aquilo tinha a ver comigo? Por que me senti tão em casa? Por que lembrei tanto da minha primeira infância? E, finalmente, por que achei que aquilo me fazia tanta falta?

De bicicleta no Loire (1)

Estive viajando de bicicleta pelo interior da França, mais precisamente na região do Loire, que eu não conhecia. Algo de muito significativo me aconteceu e percebi que finalmente uma das minhas questões referentes a deslocamento estava sendo respondida. Minha amiga Doris outro dia me perguntou se eu sentia a dor da separação. Não tinha certeza se o sentimento era exatamente de dor, mas não conseguia nominá-lo. Agora finalmente consegui.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Dimitri, um brasileiro

Li outro dia uma matéria na revista Modo de Vida, da Joyce Pascowitch, que começava assim: “Fui conhecer a casa do franco-baiano-marroquino Dimitri Ganzelevitch”. Antes de continuar a ler, já me perguntava: onde, afinal, teria nascido Dimitri? Na França, na Bahia ou no Marrocos? Pois é, isso sempre acontece comigo. Fico fascinada com a multiculturalidade dos cidadãos deste país. Paro logo no nome e começo minha fantasia. Onde nasceu, por que saiu de lá, e o quanto essa história teria influenciado suas escolhas profissionais. Sempre espero que uma pessoa assim produza algo de diferente, inovador, com tantas culturas correndo no sangue. Continuei a leitura e descobri que Dimitri é um marchand e colecionador com ideias muito particulares e firmes. Eis a conclusão do texto, assinado por Alberto Renault: “Preencher os espaços vazios para resistir à vida lá fora. Preencher elegendo e criando companhias, alegrias, e prazeres. Seria uma definição de morar?” Tento responder da perspectiva de alguém que talvez entenda o que ele quer dizer: preencher com lembranças, ou colecionar, aquilo que nos remete a um pedaço de nós mesmos que ficou em algum lugar lá atrás.

domingo, 27 de junho de 2010

Os 20 primeiros dias

Estou adorando a repercussão do blog! Sou ainda uma blogueira novata e não consigo responder os comentários com a agilidade que eu desejaria, mas prometo melhorar! Beijos para todos e muito obrigada pela participação!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sobre a Copa do Mundo (5)

Sabe-se que muitos jogadores brasileiros tentam reproduzir no exterior o ambiente que têm no Brasil – levam familiares e amigos para viver com eles e não abrem mão da feijoada e do pagode. Acabam se relacionando apenas com outros jogadores brasileiros e não estabelecem um relacionamento mais estreito com colegas de outros países. Por mais que esse apego possa ser em certo sentido louvável, será que vale a pena perder a oportunidade de conhecer a fundo uma nova cultura?

Sobre a Copa do Mundo (4)

Aproveitei um caderno especial sobre a Copa que estava outro dia no jornal e fiz umas contas. Somados, os 23 jogadores convocados por Dunga passaram 158 anos no exterior (24% dos seus 660 anos de vida). Isso equivale, em média, a sete anos fora do Brasil para cada um. Foram 35 anos passados na Itália, 30 na Espanha, 27 na Alemanha, 19 na Inglaterra, 14 em Portugal, 12 na França, 9 na Holanda, 4 na Turquia, 3 na Grécia, 3 na Ucrânia, 1 na Rússia e 1 na Coréia. A soma de todas essas experiências de vida é certamente fascinante. Mas será que os jogadores conseguem entrar em contato com aspectos culturais dos países em que vivem ou mantém apenas uma relação “profissional” e “fria” com cada lugar, absorvidos pela rotina de treinos e jogos? Chegam a aprender o idioma, experimentam a comida típica, fazem amigos no bairro em que moram?

Sobre a Copa do Mundo (3)

Não há vínculo maior entre as regiões do Brasil, tão diferentes e distantes entre si, do que o amor pelo futebol e pela seleção brasileira. É quase inexplicável como um país inteiro pára diante da TV para acompanhar os jogos. Mas será que essa ligação entre o povo e os jogadores continua tão forte quanto no passado? Dos 23 convocados por Dunga, apenas três atuam em times brasileiros. Os demais estão espalhados por oito países europeus. Vivendo tão longe, eles conseguem sentir a corrente de alta tensão que toma conta dos brasileiros durante a Copa? Há quem defenda a ideia de que somente jogadores em atividade dentro do país deveriam jogar pela seleção nacional. Será que a distância faz mesmo arrefecer o sentimento de patriotismo, o orgulho de pertencer a uma nação? Logo me vem à cabeça a comparação com o namoro a distância, cuja chama – dizem – vai se apagando aos poucos. Será que com o patriotismo acontece o mesmo? Acho que quem já morou ou ainda mora longe do seu país pode me ajudar a responder essa questão...

Uma recomendação de leitura

“Lembre-se, existem apenas duas coisas que não podemos esconder: Ishq e mushq. Amor e cheiro.” Esta é a primeira frase de um belo livro, Ishq e Mushq, romance de estreia da jovem inglesa Priya Basil, 33 anos. O livro conta a história de Sarna, que conhece o futuro marido, Karam, durante a guerra da independência da India, em 1947. Apaixonado, o jovem casal se muda para o Quênia e mais tarde para a Inglaterra, sempre em busca de algo que jamais conseguiria alcançar – a sensação de felicidade plena. Aos poucos o leitor vai descobrindo que os segredos e traumas que cada um carregava eram o grande obstáculo para apagar de vez o passado e recomeçar uma vida verdadeiramente nova. A relação esfria com o tempo e Sarna passa a descontar suas frustrações na cozinha – é ali, preparando os melhores pratos da cozinha indiana, que ela se reconecta com suas origens e tem a sensação de voltar à infância, único período da vida em que imagina ter sido realmente feliz. Trata-se, no fundo, de um livro sobre a busca de uma família pela própria identidade. A história nos faz pensar: é possível alcançar a felicidade plena deixando para trás as raízes ou é inevitável que uma família de imigrantes viva com a permanente sensação de que está faltando alguma coisa?

sábado, 19 de junho de 2010

Um verdadeiro cidadão do mundo

O cantor e compositor Mika, apelido de Michael Holbrook Penniman, é o que se pode chamar de “cidadão do mundo”. Nascido em Beirute em 1983, filho de um norte-americano e de uma libanesa, ele se mudou para a França com os pais para escapar dos conflitos no Líbano. Ainda criança foi para a Inglaterra, onde estourou há dois anos nas paradas com um estilo que mistura David Bowie, Freddie Mercury, Elton John e Prince. Depois do primeiro single, Grace Kelly, ele conquistou a crítica com outros sucessos como Love Today e Big Girl. Em fevereiro deste ano, lançou Blame it on the girls. E eu fico aqui me perguntando: o que teria sido de Mika se ele tivesse permanecido no Líbano? Encontraria o caminho da arte de qualquer jeito ou teria uma trajetória totalmente distante da música?

domingo, 13 de junho de 2010

Sobre a Copa do Mundo (2)

Tenho um amigo, nascido na Inglaterra, que passou a adolescência na Argentina, mas mudou-se para o Brasil, onde casou e teve uma filha. Nessas épocas de Copa, sinto que ele se rasga por dentro. Quer torcer somente para o Brasil, mas toda vez que a Argentina ou a Inglaterra jogam, percebo que sua fisionomia se transforma e vem aquela vontade de gritar “goool!”. Mas ele se segura e finge que não é com ele. Se o Brasil é desclassificado, ele até sente um alívio porque pode começar a torcer para seus dois outros times sem drama de consciência... Tenho outros tantos amigos, filhos e netos de italianos, que torcem em primeiro lugar para o Brasil, mas também ficam felizes se a Itália vence. E tudo isso vale para descendentes de alemães, franceses e até de árabes que se identificam com qualquer país da região que consiga participar de uma Copa do Mundo. E você, leitor, acha que dá para amar mais de um time? Será que é como perguntar se dá para amar duas mulheres ao mesmo tempo? Se aquela dos sonhos não estiver disponível, quem sabe damos uma chance à felicidade com a outra...

Sobre a Copa do Mundo (1)

Estamos em clima de Copa do Mundo e eu me pergunto: quantos brasileiros têm um segundo time escondido no coração verde-amarelo? No caso de uma eventual desclassificação do Brasil, para quem você torceria? Para a seleção do país de origem dos seus pais, dos seus avós, ou para um país em relação ao qual você tenha desenvolvido algum tipo de simpatia por razões não relacionadas às suas origens? Ou você é daqueles 100% Brasil, que se recusa a torcer para outra seleção?

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Quando as emoções afloram (2)

Será que um imigrante consegue tocar sua vida adiante sem olhar para trás? Será que é possível construir uma história inteiramente nova, que desconsidere o passado? Muitas vezes me questiono se todo imigrante carrega consigo essa necessidade de conhecer suas origens.
Quanto tempo é necessário para que um brasileiro nato se sinta genuinamente brasileiro, sem se sentir patrioticamente ligado ao país – ou países – em que seus antepassados viveram?
Fica a pergunta para todos os filhos, netos e bisnetos de imigrantes que vieram para o Brasil e foram tão bem acolhidos. Conseguimos ser 100% brasileiros, sem amarras com o passado? Ou será que isso pouco importa?

Quando as emoções afloram (1)

Há algumas semanas, recebi um e-mail de um senhor chamado George Abid, professor de arquitetura na Universidade Americana de Beirute. Ele me informava que uma de suas alunas, Aline Haddad, estava concluindo seu curso e apresentando como trabalho final um estudo sobre meu avô, Zareh Nazareth Baghdassarian, importante arquiteto libanês entre as décadas de 1930 e 1960.
Em seu e-mail, George me pedia para auxiliar sua aluna fornecendo algumas informações sobre meu avô. Respondi que havia deixado o Líbano muito cedo, em 1970, aos seis anos, e que infelizmente tinha pouco conhecimento sobre a obra deixado pelo meu avô.
Prometi falar com minha mãe, que está com 78 anos e tem uma saúde frágil, mas uma memória de elefante para fatos antigos. Fui entrevistar minha mãe – uma tarde em que muitas emoções afloraram. Choramos juntas e falamos do amor pelos nossos pais, ambos já falecidos.
Ao final daquele encontro, me deparei outra vez com aquela sensação que imaginava ter deixado para trás após publicar meu livro: a angústia de querer saber mais sobre minhas origens. Quantos fatos eu desconhecia até aquele momento, e quanta coisa agora fazia sentido!
Entendi um pouco mais porque sou como sou.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A necessidade de ter raízes

“Ter raízes é talvez a necessidade mais importante e menos reconhecida da alma humana... Como podemos saber para onde vamos se não soubermos de onde e por que viemos?” (Hannah Arendt, filósofa alemã, 1906-1975)

Como tudo começou (3)

Logo percebi que cada linha do relato que brotava do papel era um pedaço de mim. Entendi que, na verdade, eu estava tentando esclarecer aquilo que me perturbava desde criança: o sentimento de “não pertencer”. Eu agora sabia claramente de onde vinha, e isso aliviava aquela dor perturbadora.
O exílio é um lugar sem lugar definido, um Estado sem nome. Não sou uma refugiada, não sou uma fugitiva, nem uma sobrevivente, sou apenas mais uma imigrante. Como afirmar, então, que estou no exílio? Exilados pensam em voltar? São nacionalistas fanáticos? Tentam manter vivas suas tradições e costumes? Este é o exilado clássico, aquele que todos conhecem. O livro Destinos Deslocados é resultado de uma busca permanente de um tipo de exilado que poucos reconhecem, o imigrante.

Como tudo começou (2)

O livro Destinos Deslocados nasceu de um forte sentimento que me perseguiu por praticamente toda a vida como uma sombra grudada aos meus pés – ou melhor, à minha alma. Um sentimento que se manifesta na busca por descobrir quem sou de fato e compreender a sensação permanente de “não pertencer” que sempre me afligiu.
Não pertencer, não encaixar, não entender, não concordar e, por fim, não aceitar. Sempre tive dificuldades para aceitar minha diferença, não aquela óbvia e inerente ao ser humano – somos todos individuais e únicos –, mas uma diferença mais sutil, camuflada por mim às vezes de propósito, mas quase sempre de forma inconsciente.
Talvez até pareça que estou tentando dizer que considerava essa diferença algo negativo, mas a verdade é que na maioria do tempo me sentia especial – e isso é muito perturbador. Durante anos achei que devia dizer algo, mas não sabia o quê. Finalmente aceitei a sugestão feita por alguns amigos: escrever um romance. Não sobre um tema que era secreto, mas sobre as histórias que gostava de contar em encontros sociais e que faziam as pessoas se divertirem e rirem por alguns instantes.

Como tudo começou (1)

O livro que publiquei há três anos, Destinos Deslocados, conta basicamente a história de meus pais, Mireille e Ibrahim, que se mudaram para o Brasil em 1969 com sua pequena filha única de cinco anos nascida no Líbano: eu. Para mim, o livro foi acima de tudo uma prova pública da minha aceitação e gratidão pelos pais que tenho. Eles me ensinaram que é possível ser diferente e deram início à missão que pretendo honrar, oferecendo ao Brasil o que tenho de melhor: meus filhos. Neste blog, eu gostaria de continuar refletindo e discutindo a temática que é o pano de fundo do livro e, por assim dizer, da minha própria vida: o que é, afinal, sentir-se brasileira? Quantas gerações são necessárias para que os imigrantes que chegam ao Brasil ou a qualquer outro país assimilem novos hábitos e costumes? No meu caso, sinto ainda que estou entre dois mundos, dois pontos distantes entre os quais ainda não consegui estabelecer uma ligação plena. E fico me perguntando: quantas e quantas pessoas se sentem da mesma forma neste imenso e multicultural país?